Iluminação espiritual – Osho

O texto é longo, mas é uma das melhores definições que já li sobre iluminação espiritual.

“A iluminação é o nome de uma experiência interior, em que ambos estão envolvidos: a morte da personalidade e o renascimento da individualidade.

Os habitantes dos mosteiros no mundo inteiro desejam ser iluminados, despertados, libertados. São muitas palavras para a mesma experiência. Porém, eles estão simplesmente agindo de forma estúpida. Na verdade, ao desejarem a iluminação, estão transformando a iluminação em um artigo no mercado.

A iluminação não é algo a ser desejado.

Então, o que se tem que fazer? É preciso que a pessoa compreenda a personalidade, camada por camada. É preciso que esqueça tudo sobre iluminação, pois isso não tem nada a ver com a pessoa. Uma coisa é certa: a pessoa não pode ser iluminada. Ela deve começar com o que ela é.

Deve-se descascar a própria personalidade, camada por camada, da mesma forma que se descasca uma cebola. Basta descartar essas camadas. Novas camadas estarão presentes e, finalmente, chega o momento em que a cebola desaparece e sobre apenas um vazio nas mãos. Esse momento é o momento da iluminação. Não se pode desejá-lo, porque o desejo acrescenta outra camada à cebola, e é uma camada muito mais perigosa do que qualquer outra.

Tornar-se presidente não é grande coisa, qualquer idiota pode conseguir isso. Na verdade, os idiotas estão fazendo isso no mundo todo. Quem mais está interessado em se tornar presidente ou primeiro-ministro?

Nunca vi nenhum homem de sabedoria tentar ser o presidente ou primeiro-ministro.

Será que alguém já observou um fato estranho sobre terem existido alguns reis que se tornaram iluminados no passado? Ashoka, na Índia, tornou-se iluminado. Ele foi um dos maiores imperadores do mundo e, na verdade, a Índia nunca foi tão grande depois dele.

Partes da Índia passaram a ser invadidas, tornando-se novos países. Hoje a Índia é só um terço do que foi no império de Ashoka.

Houve outros imperadores na China, no Japão, na Grécia, que se tornaram iluminados. Um imperador não era aquele que desejava ser imperador. Assim como alguém nasce mendigo, ele nasce imperador. Ele tem isso como fato consumado, não se torna uma camada de cobiça em torno de sua cebola.

Mas nunca se ouviu falar de nenhum presidente, nenhum primeiro-ministro que tenha se tornado iluminado. Parece estranho, mas a razão é clara. Os presidentes não nascem presidentes, eles têm que lutar por isso, eles têm que mentir e prometer, e sabem perfeitamente bem que as promessas não podem ser cumpridas. Eles têm de ser diplomáticos, e não podem dizer o que querem. Eles vivem dizendo coisas que nunca irão executar. O político tem que ser muito astuto.

Nenhum político é conhecido por se tornar iluminado pela simples razão de que, em um mundo democrático, onde a monarquia desapareceu, ser o chefe de Estado é um dos grandes desejos do ego. Porém, o desejo da iluminação é o desejo supremo, não se pode desejar nada maior do que isso. Foi pedida a felicidade suprema, foi pedida a sabedoria existencial suprema.

O homem não deve fazer da iluminação um desejo, pois vai continuar perdido.

O que sugiro às pessoas é que esqueçam a iluminação.

Não tem nada a ver com as pessoas, elas nunca irão vê-la, pois a iluminação acontece quando a pessoa não é. Depois de descascar completamente a cebola, quando o ego evaporar, a iluminação estará lá. Mas não se pode dizer: “Tornei-me iluminado.” O “eu” não está mais presente, é a iluminação que está presente.

O medo é natural, porque a pessoa tem que abandonar toda a sua personalidade, e isso é tudo o que ela tem no momento. Ela não sabe que há algo por trás disso. Ela quer ganhar mais, e eu lhe digo para perder tudo o que a torna ela própria. Esse é o medo. Se der ouvidos ao medo, então não há esperança.

Mas, na verdade, o que ela tem? Ansiedade, angústia, tédio, desespero, fracasso, ou seja, milhares de complexos. Este é todo o seu tesouro. Basta olhar para ele! Qual é o medo de abandonar esse tesouro, de se livrar da ansiedade, de se jogar fora o tédio?

Mas as coisas são realmente complicadas. Por que ficar tão entediada? E por que você não pode se livrar disso? Deve haver algum interesse nisso. A pessoa está entediada com a esposa ou com o marido. Toda esposa e todo marido estão sujeitos a chegar a um ponto em que ficam cansados um do outro, entediados. Mas há uma complicação. A pessoa não pode simplesmente dizer adeus ao cônjuge. Eles têm filhos, ambos os amam e não querem deixar os filhos. Vai haver uma briga em um tribunal para decidir quem ficará com os filhos, e os dois não podem ficar com eles ao mesmo tempo.

O casal tem certo prestígio na sociedade. As pessoas pensam que eles formam um dos casais modelo, porque veem que eles sempre demonstram amor um pelo outro. Quando o marido vai para o trabalho, ele beija a esposa; quando chega do escritório, ele beija a esposa; como um ritual. Não significa nada para ele, nem para ela, e os dois sabem disso. E enquanto ele beija a esposa, diz dentro de si: “Para o inferno com tudo isso!”

Mas os outros não ouvem o que a pessoa diz dentro de si mesma. Elas apenas veem e pensam: “Lá se vão 30 anos de casamento, e eles ainda são tão amorosos, como se no carro deles ainda estivesse escrito ‘Recém-casados’. A lua de mel deles parece ficar cada vez mais longa, 30 anos de lua de mel!”

Não há fim para isso. Quando frequentam a sociedade, ambos costumam fingir, pois têm que manter a imagem de que formam o melhor casal. Estes são os seus investimentos.

Talvez o homem seja rico porque se casou com uma mulher rica. Se largá-la, vai ser um mendigo novamente, e ele não quer isso. Talvez ele tenha um bom emprego por causa da boa aparência da esposa, o que denota um mundo muito estranho, ou das relações da esposa, influência. E ele pode perder o emprego se abandonar a esposa.

Então, como descartar o tédio? O tédio está ligado a muitos investimentos.

É preciso coragem, muita coragem. E eu gostaria de dizer que é melhor ser um mendigo, mas sem tédio, muito melhor do que ser um imperador entediado, porque o tédio é uma mendicância espiritual. E nunca vem sozinho. Quando se está entediado, há desespero, ansiedade, uma tensão constante na mente: o que fazer? A pessoa tem que continuar a viver com uma mulher ou com um homem que gostaria de matar, e ainda tem que lhe dar beijos.

Eliminar o tédio significa dar um passo revolucionário, custe o que custar. Não tem por que alguém se arrastar pela vida como um indivíduo entediado, pois qual é o sentido de se viver? E é possível ver no mundo inteiro que todos estão entediados. Alguém está entediado com seu trabalho, com seu emprego. Ele nunca quis ser médico, mas seus pais o forçaram, porque ser médico é respeitável e lucrativo. Ele tem lucro, obtém respeito e ainda é considerado um grande servidor público, uma vez que presta serviços à humanidade. É realmente muito bom!

Os pais forçaram o rapaz a se tornar médico. Ele odeia isso, nunca quis isso, queria ser pintor. Porém, ninguém lhe deu ouvidos, e diziam: “Você é louco. Se quiser ser pintor vai morrer como um mendigo na rua. Deixe de lado toda essa bobagem. Quando se é jovem, toda espécie de ideia romântica vem à mente.

Fique calmo, rapaz. Nós também fomos jovens, e também sonhamos com coisas fantásticas, mas agora sabemos que todas essas ideias românticas são apenas uma fase passageira. Se permitirmos que você se torne pintor, nunca vai nos perdoar! Não podemos permitir que você seja um pintor.”

Há quem queira ser músico, dançarino, escultor, mas ninguém o irá apoiar. Um indivíduo queria ser dançarino e tornou-se empresário, e está entediado com isso. Ele realmente quer um dia se enforcar em uma árvore e acabar com tudo. No entanto, ele também não pode fazer isso, porque há muita coisa a ser feita, como ter de preencher os formulários de declaração do imposto de renda, e o departamento fiscal está atrás dele… Ele não tem tempo para se enforcar.

Muitas coisas estão inacabadas ao redor de todos. Primeiro, é preciso terminar tudo, para depois se enforcar. Porém, há coisas que sempre ficarão inacabadas. E a ideia de se enforcar dá um pouco de relaxamento, certo prazer, pois, qualquer que seja a situação, há sempre uma saída: sempre existe a possibilidade de se enforcar. Então, qual é a pressa? E quem sabe? Amanhã tudo pode mudar, o rapaz pode encontrar a mulher certa.

Não há mulher certa, homem certo, ninguém nunca os achou. A fantasia de encontrar o homem certo, a mulher certa… Em um casal, quando os dois se apaixonam pela primeira vez, acham que foram feitos um para o outro: essa é a mulher com que ele sempre sonhou. Isso é o que o homem, a mulher, sempre pensou, sempre desejou. Porém, quando a lua de mel acaba, o casal sabe que está preso à pessoa errada, que eles não foram feitos um para o outro.

No entanto, as pessoas continuam a fantasiar: “Talvez alguma outra mulher”, uma vez que o mundo é tão cheio de mulheres, tão cheio de homens. Desta vez o homem perdeu, mas da próxima…

Um amigo meu se casou três vezes. Na Índia, é difícil obter o divórcio. Quase toda a sua vida foi desperdiçada, e o problema eram as mulheres. A lei não é fácil, mas, de alguma forma, ele conseguiu, porque na Índia é possível, de algum modo, conseguir tudo. Basta que se tenha dinheiro; e ele tinha dinheiro. É possível subornar todo mundo. É uma tradição nacional, e não é nova, é muito antiga.

Os indianos têm subornado Deus, por que, então, se preocupariam ao subornar um funcionário ou um juiz? Quando o indiano vai ao templo e diz ao seu deus “Se eu ganhar nessa loteria, vou presenteá-lo com doces no valor de 5 rúpias” ou “Vou dar uma festa para 11 brâmanes”, o que é isso? A loteria é 1 milhão de rúpias, e com 5 rúpias, ele está tentando ganhar 1 milhão de rúpias! E durante séculos os indianos subornam Deus, é sua herança. Ninguém se sente mal com isso.

O indiano pode dar propina para qualquer pessoa. Nem ele se sente mal com isso, nem a pessoa que recebeu se sente mal com isso, porque ela está fazendo seu trabalho. É praticamente um pagamento pelo serviço. E ela está fazendo um trabalho muito mais caro do que o suborno que o indiano está lhe dando. Todos conseguem tudo. Uma pessoa pode matar alguém e será libertada respeitosamente pelo tribunal. Tudo que ela precisa é dinheiro.

Então, as pessoas continuam achando que amanhã pode ser diferente. Meu amigo trocou de esposa três vezes, e sempre me dizia:

“Desta vez não me deixarei atrair por uma mulher como a última, de quem estou para me livrar. Ela é uma verdadeira puta!”

E eu lhe dizia: “Você vai sempre se apaixonar por uma verdadeira puta.”, ao que ele respondia: “Isso é estranho. Você continua insistindo, e o espantoso é que você está sempre certo. A mulher seguinte revelou-se tão puta quanto a primeira, e a terceira se revelou tão puta quanto as outras. Como você prevê?”

“Não prevejo, não sou astrólogo. Simplesmente, eu conheço você, que tipo de mulher vai ser atraente para você, isso eu sei. Por que você teve uma queda pela primeira mulher? Já pensou, já analisou quais qualidades daquela mulher o atraíram? E quem vai encontrar a segunda mulher para você? Você, de novo, e você novamente será atraído pelas mesmas coisas.”

Continuei a explicar.

“Você não mudou, suas atrações não mudaram. Você nunca se preocupou com o fato de ser responsável por ter escolhido aquela mulher. É por isso que, por três vezes, você obteve o mesmo tipo de mercadoria… de novo e de novo e de novo. Não é uma questão e divórcio, não é uma questão de mudar de mulher, é uma questão de mudar sua mente.

Mas as pessoas sempre tentam despejar as coisas nos outros. O pai sofre de ansiedade porque seus filhos estão se tornando hippies.

A filha está usando drogas, o filho vem fazendo tudo errado: cabelos longos, barba, drogas e abandonou a universidade. O pai está sofrendo de ansiedade: o que acontecerá? Ele está despejando sua ansiedade na filha, no filho, na esposa, e ninguém aguenta.

Será que esse pai pensa que se seu filho andasse perfeitamente na linha e sua filha não estivesse grávida antes do casamento, se os dois não tivessem se metido com drogas, ele não estaria sofrendo de ansiedade? Conheço muitas pessoas cujas filhas seguem tudo o que os pais falam, cujos filhos estão cumprindo sua educação de maneira como os pais querem, e que, apesar disso, sofrem de ansiedade devido a alguma outra coisa. Eles vão encontrar algum outro objeto com que se preocupar.

Aquele que tem filhos está preocupado com os filhos. Aquele que não os tem está preocupado porque Deus não lhe deu filhos. Este nosso mundo parece ser realmente um zoológico, com todas as espécies de animais.

Descartar as camadas do ego significa que a pessoa está pronta para cometer um suicídio psicológico. Chamo isso de sannyas, pois, se eu chamar isso de “suicídio” as pessoas vão ficar mais assustadas.

As pessoas vieram aqui para serem iluminadas, não para cometer suicídio. Porém, a realidade é que, se não cometerem suicídio, não haverá iluminação. Elas querem iluminação, e não querem descartar nada, não querem perder nada.

O homem quer a iluminação mantendo-se como ele é. Ora, isso é impossível. Ele terá que cortar muitas coisas que se tornaram quase idênticas a ele mesmo. E isso é o que eu faço continuamente: bato, martelo, choco as pessoas. E vou continuar a fazer tudo o que for possível para chocá-las, feri-las, magoá-las, porque quero que tenham consciência de que é o ego delas que fica magoado, é o ego delas que fica ferido.

O homem não deve seguir seu instinto do medo, porque isso fará dele um covarde. Ele degrada sua humanidade. É uma humilhação autoimposta. Sempre que vir algum medo, você deve ir contra ele! Um critério simples: sempre que vir que há medo, vá contra ele, e estará sempre em movimento, crescendo, expandindo-se, aproximando-se do momento em que o ego simplesmente cai, uma vez que todo o seu funcionamento ocorre através do medo. E a ausência do ego é iluminação; nada mais que isso.

A iluminação não é algo a mais acrescentado à pessoa. A iluminação é a pessoa por inteiro.

É um fenômeno de subtração — a pessoa não está mais lá. Isso não acontece com ela, acontece quando ela não está mais impedindo isso, quando ela não é. É por isso que chamo a iluminação de suicídio psicológico.”

Fonte: OSHO – O Livro do Ego.

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